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Salvamos uma vida hoje!

“Salvamos uma vida hoje”, “Não é preto versus branco, é todo mundo contra os racistas”.

Essas foram as palavras de Patrick Hutchinson ao descrever o que havia acontecido. É preciso ter coragem e esperança pra fazer o que ele fez. São em momentos como este que a humanidade é construída, ou não. Na tarde de ontem, em Londres, manifestantes contra o racismo foram confrontados por grupos supremacistas brancos. Na confusão, um homem branco foi atingido na cabeça, cai no chão e está prestes a ser linchado. Neste momento Hutchinton intervém, o coloca no ombro e o leva em segurança pra ser socorrido. Coloque-se na cena. Os ânimos acirrados, gritaria, pancadaria, pedras e garrafas voando, policiais com cassetetes e balas de borracha tentando dispersar a multidão. Em meio a tudo isso, num lapso de segundo, como num ato reflexo, um ser humano socorre outro.

Mais do que isso. A beleza, grandeza e dignidade do ato de H. foi em que ele decide socorrer um inimigo caído. Fazendo isso ele não somente salvou seu oponente, mas salvou a si mesmo e salvou a nós todos, que ficamos um pouco mais humanos também. Sua ação abre a possibilidade de redenção para o supremacista branco. Agora ele deve responder à sua consciência que clama por justiça. Como explicará a si mesmo o ato de H.? Mudará de atitude? Não sabemos. Espero que sim.

Mas mesmo que o supremacista não se converta, nem por isso o ato de H. perde seu valor. Ao contrário. Nossos atos de justiça não devem ser motivados pela possibilidade de mudar o outro. Eles têm um valor intrínseco. O amor, a solidariedade, a misericórdia devem ser praticados, ainda que não sejam vistos, valorizados ou reconhecidos. É isso que nos faz humanos.

“Amem seus inimigos”. A proposta de Jesus, de aplicar a cruz a nossa vida diariamente até o ponto de amarmos e socorrermos aqueles que nos odeiam é o único caminho possível para a construção de uma nova humanidade. Um novo mundo é preciso. Um novo mundo é possível.

Seguir a Jesus, o ser humano como todo ser humano deve ser.

O Reino do bem chegou e seu avanço é irreversível.
Há esperança.
Creia.

Foto: Dylan Martinez / Reuters

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Vai ter cruz, sim!

Desde o início, ele nunca demonstrou apreço pelo humano. Não fossem os limites impostos, todos nós estaríamos consumidos. Ele, que não suporta a vida e a alegria, se alimenta da violência, da mentira, do ódio, da morte. Quase sempre age às escuras. Dissimulado. Mas em tempos sombrios como os nossos, ele se sente à vontade e exibe sua face. Intolerante. Cruel. Mesquinha. Abjeta.

Hoje apareceu lá em Copacabana. Na areia branca, desandou a derrubar as cruzes. Repare. Não chutou as faixas, não se voltou contra os voluntários, nem tratou de fechar as valas. Seu ódio derramou-se sobre o símbolo que mais abomina e teme. A Cruz. Foi numa cruz que um dia ele foi vencido, desmascarado, humilhado. A cruz vazia expõe sua impotência. Ele pode chutá-la, mas não pode derrotá-la. O amor venceu. A esperança sorriu. A justiça e a paz se beijaram. Uma nova vida é possível.

E aquele pai que passava por ali, arrasado pela perda do filho amado, olha a cena e, de tanta dor guardada no peito, clama, como um brado, um aviso:

– Vai ter cruz, sim! Foi meu filho!

Ecos da eternidade em Copacabana.

Não é o vírus. O que está matando o Brasil é o deus da morte e seus adoradores.

Acorda, Brasil. Grita, Brasil.
Se agarra nesta cruz e sai da vala. Respira.
O rio de paz vai jorrar. Ele pode nos lavar. Ele pode nos curar.
E nós, qual crianças, podemos nadar de braçada.

Você vem?

Imagem do g1

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Racismo: sua origem e cura

O mundo não é justo e o Brasil é um dos países mais injustos do mundo. Isto é pecado e afronta o coração do nosso Pai que é Santo e que se levanta contra toda forma de injustiça. Dentre tantas injustiças deste mundo mau, o racismo é uma das mais repugnantes, pois afirma o valor e dignidade de alguém a partir da cor da pele. Sua raiz está no orgulho de se achar melhor, de ter mais valor do que o outro. Pecado.

Não só os negros são alvos do racismo e deste orgulho incabível. Há também o preconceito contra os indígenas (que para muitos não são “gente”), contra os ciganos, analfabetos, pobres e também contra as mulheres, que até pouco tempo eram consideradas inferiores aos homens. O racismo é o fundamento da eugenia, doutrina que prega a limpeza étnica, a purificação da raça (conceito racista), a aniquilação do outro (diferente de mim, branco puro). Assim, o nazismo é filho do racismo.

Apesar de parecer absurdo, nossa geração tem visto o renascer destas doutrinas hediondas, com movimentos neonazistas e de supremacistas brancos se espalhando pelo mundo. Destilam ódio, violência e morte. Em meio a isto vemos a morte de George Floyd, João Pedro, Miguel…

É obvio que todas as vidas importam (numa sociedade sadia). Não está sendo dito que só as vidas dos negros importam. É claro que a Bíblia ensina que todos nós somos iguais perante D’us. Mas o movimento nas ruas não está criticando o que a Bíblia ensina, mas sim como nossa sociedade doente, pecaminosa, maligna, foi e está estruturada. Daí a expressão “racismo estrutural”.

O que precisa ser vencido, como humanidade e particularmente no Brasil, é nossa incapacidade ou falta de vontade de nos colocarmos no lugar do outro. Especialmente o que é diferente de nós. E o Evangelho vai no coração deste egocentrismo: Ame o próximo como a ti mesmo. Faça ao outro o que você quer que ele lhe faça. Nas palavras de Paulo, alegrem-se com os que se alegram, chorem com os que choram. Tudo isso confronta nosso pecado egoísta e nos convida a nos colocarmos no lugar do outro, ferido, injustiçado, explorado, violentado. É isto que estou buscando. Creio que este é um exercício necessário a ser feito no Brasil, hoje. Estamos séculos atrasados e nossas injustiças se acumulam aos céus.

O evangelho que nos foi pregado enfatizou sobremaneira que a salvação é uma dádiva pessoal, espiritual, intimista, a ser vivido dentro de nossos quartos, nossos templos. Tenho aprendido na Palavra e na vida que o Evangelho também é comunidade, justiça, paz (veja conceito de Shalom no AT) e tem muito a falar contra o pecado na sociedade. Ele toca na concretude da vida lá fora.

Em Mateus 23.13 Jesus afirma que os fariseus (que eram piedosos religiosos à sua própria vista) eram hipócritas porque “devoravam as casas das viúvas” e para se justificar, faziam longas orações. No verso 23 Jesus os acusa de serem tão meticulosos a ponto de dar o dízimo de pequenas coisas, como a hortelã e o cominho, mas negligenciar os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fé. Em Lucas 16.14, após Jesus afirmar que não era possível servir a dois senhores, a Deus ou a mamon (dinheiro), os fariseus o ridicularizaram, pois, “eram avarentos”, ou em outra tradução, “amavam o dinheiro”.

É por estas e outras que creio ser relevante tratarmos estas questões no Brasil de hoje a partir da ótica da fé que Jesus nos ensinou. É incoerente que um seguidor de Cristo se negue a exercer empatia, misericórdia, justiça. Padece de cegueira e audição seletiva. Há muito o clamor dos estrangeiros, das viúvas e órfãos pobres, dos injustiçados, dos explorados não chega até estes ouvidos seletivos. É como se estivessem no alto de suas varandas, louvando a D’us pela natureza, pelo lindo pôr de sol, e fossem incapazes de escutar o clamor dos que são explorados, deixados à sua própria sorte nas calçadas.

Que o Senhor tenha misericórdia de nós e nos ajude a ver, ouvir e sentir a dor de nossos irmãos. Só assim seremos capazes de nos juntar a eles em seu clamor por justiça.

Ore por mim, quero muito viver à altura daquilo que escrevo.
Abraço fraterno.

(Imagem: Yann Libessart- MSF)

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Racismo à brasileira

Aos que argumentam que todas as vidas importam, que a morte do menino Miguel, em Recife, não tem nada a ver com a cor da pele…

O fato concreto é que ele era negro, filho de uma família pobre. Assim como era negro e pobre o menino João Pedro, assassinado dentro de casa pelas forças militares no Rio. Assim como era negro o angolano assassinado em Itaquera dia 17 maio.

No Brasil, 75% das milhares de pessoas assassinadas por ano são pobres e negras.

Há quem prefira dizer que isto é um problema econômico. Sim, digo eu, problema econômico causado pelo racismo estrutural.

Quem morre mais de bala perdida: negros ou brancos? Quem morre mais nos desabamentos nas encostas?Quem morre mais quando as forças militares invadem a favela?
Quem morre mais nos corredores dos hospitais por falta de leito e atendimento?

Você diz. Os pobres.

Sim, os pobres que em grande parte são negros. Coincidência? Falta de vontade de estudar e trabalhar? É isso mesmo que você pensa?

Esses irmãos e irmãs brasileiros estão nessas condições de vulnerabilidade por conta de um sistema maligno (escravidão) que forjou a sociedade brasileira por centenas de anos. Sim, séculos!

Os acontecimentos trágicos que aconteceram no Brasil e nos USA trazem à tona um mal terrível chamado racismo. Ele está tão entranhado em nossa cultura que muitos chamam de “leve”. Mas é exatamente o contrário. Racismo no Brasil é tão forte que acaba sendo natural.

É mais fácil pra nós catalogarmos essas barbaridades como pobreza. Isso de certa forma nos isenta. Lavamos as mãos e seguimos em frente… Não, não mais. Há gente que não tá conseguido mais respirar. Não é só pela justiça e pela paz (e isso é muito). Antes disso, é pela dignidade e valor intrínseco e incomensurável dessas vidas. Sim, especialmente vidas negras.

Temos diante de nós a possibilidade de reavaliar nossa forma de ver o outro e de viver. De construir um novo país, sobre novos alicerces. Sim, vamos ter muito trabalho… Mas a esperança é forte. Ela é resiliente.

E como sempre digo, e procuro viver, a começar em mim. #vidasnegrasimportam

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O pet passa bem. O Brasil, não!

Miguel (5), negro, é levado ao trabalho com a mãe, doméstica.
Mãe tem que descer pra levar o pet da patroa fazer xixi.
Miguel fica aos cuidados da patroa, socialite de Recife, que estava também ocupada com a manicure.
Cinco minutos depois, patroa coloca Miguel no elevador e aperta 9 andar.
POR QUÊ!? Pro Miguel dar uma voltinha na cobertura? sozinho?
Miguel cai no vão livre do prédio.
Mãe volta. Porteiro diz que ouviu um barulho. Será que alguém caiu?
Mãe encontra Miguel morto.
Negligência?
Só?
Patroa paga fiança e é liberada.
Não existe racismo no Brasil.
Existe Casa Grande e Senzala.
O resto é tragédia.
O pet passa bem.
O Brasil, não!

ilustrações: @desenhosdonando @lazmuniz #justicapormiguel #vidasnegrasimportam

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João Manuel. Angolano. Vítima de Xenobobia.

Este é o João Manuel (47), dificilmente você ouviu falar dele.

Angolano refugiado, frentista, residente em Itaquera, Zona Leste de São Paulo, assassinado no último dia 17, com 3 facadas no peito, por um brasileiro que não aceitava seu direito de receber o auxílio emergencial do governo. Crime gravíssimo de Racismo. Xenofobia. Intolerância. Ódio.

Infelizmente, não é um caso isolado. Há várias denúncias de crimes de xenofobia/racismo sofridas por imigrantes negros na região.

Um outro querido irmão refugiado congolês, que tive a honra de acolher na nossa casa de passagem, homem íntegro e trabalhador incansável, família linda, após alcançar sua autonomia financeira foi morar na ZL, onde meses depois foi esfaqueado na frente de casa quando ia pro trabalho às 5h da manhã. Foi hospitalizado. Sobreviveu.

Quando me narrou o episódio, semanas depois, em lágrimas disse que ninguém queria socorre-lo. Perguntava-me o porquê disso? Porquê tentar matá-lo? Só por ele ser negro? Eu vim ao Brasil pra fugir da violência na África! Não tive resposta.

Semanas depois, de tanto medo e desespero, embarcou na proposta mentirosa de um coiote (traficante humano) que lhe prometeu levá-lo aos EUA cobrando todas as suas economias.Loucura? Sim, pessoas desesperadas fazem loucuras pra tentar sobreviver. Foi assim no Congo, depois Angola, depois Brasil… Se conseguir entrar nos EUA, encontrará outra atmosfera? Tenho dúvida.

Até onde sei, depois de uma viagem arriscadíssima, ele, esposa e 4 filhos pequenos estão detidos em Costa Rica, numa prisão para imigrantes ilegais. E isso me causa uma dor enorme…

Que tipo povo somos nós? Digo, em que estamos nos transformando? Rejeito completamente que essas atitudes representem o povo brasileiro. Muito menos gente que se diz cristã.

Mas é preciso reagir. É preciso denunciar, apurar e julgar todo tipo de violência: verbal, simbólica, física… Venha de onde/quem vier. E é preciso fazer justiça às vítimas.

Precisamos urgentemente retomar o diálogo. Nutrir e construir uma sociedade plural, que respeita e valoriza a diversidade, a beleza do Criador estampada em cada face. Cada etnia. Seja ela oriunda de povos indígenas, ciganos, quilombolas…

Um outro Brasil é possível. Um outro Brasil é preciso.

Eis-me aqui, Senhor. Venha teu Reino, seja feita tua vontade. Aqui. Hoje. A começar em mim.

#RacismoNao #XenofobiaNao #justiçaparajoaomanuel