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Lembro-me dos seus pés

Passava das 13h quando ele ligou. Eu estava preocupado, pois ele não costuma se atrasar. Tínhamos combinado um almoço em casa. Fazia tempo que não nos encontrávamos e ambos estávamos felizes por, enfim, havermos conseguido aquela oportunidade. Constrangido, disse-me que não viria almoçar. Relatou que havia ficado uma hora e meia tentando chegar em casa mas o ponto de ônibus mudou e ele, sem falar Português direito, não havia conseguido encontrar o novo local.

Aos 60 anos e abalado emocionalmente por conta do refúgio, ele não conseguiu ainda avançar no estudo do nosso idioma. Pra piorar, tinha esquecido o celular em sua casa. “Falhei duas vezes”, me dizia repetidas vezes. Depois de muito tentar resolveu voltar pra sua casa. Sua voz era de tristeza e desapontamento. Na sua cultura isso é um ato quase imperdoável.

Mostrei compreensão, afirmei que não tinha problema e decidi me oferecer pra ir à sua casa, naquela mesma noite, pra mostrar que estava tudo bem. Ficou feliz. Marcamos pras 20h. Cheguei um pouco depois. Levei comigo uma pequena embalagem de uva e um saquinho de maçãs. Regras da hospitalidade oriental que a gente vai aprendendo. Veio me receber à porta. Vejo-o com os cabelos pintados, aparência boa. Bom sinal, penso. Ele está bem…

Entro na sua pequena sala e sento-me. Começamos a conversar e reparo em seus pés. Sandálias novas. Mas são seus pés que me chamam a atenção, não as sandálias. Parecem querer dizer-me algo. Lembro-me da sua história. Nasceu numa família extremamente pobre do interior de um país asiático. Na infância não havia escola por perto. Cresceu ajudando seu pai no carro de boi. Naquela época, sem carros e caminhões, um carro de boi tinha muita utilidade. É um serviço duro, muito duro, mas digno.

Perto dos seus vinte anos, durante uma viagem à trabalho com seu carro de bois, teve um sonho/revelação. Nele o Senhor Jesus o convoca. Decide dedicar sua vida à igreja e nunca se casar. Nos próximos dez anos vive como um andarilho. Peregrino descalço. Evangelista itinerante. De vila em vila, aldeia em aldeia, anunciando Jesus a um povo totalmente longe da graça. E o povo que andava em trevas viu uma luz. E a luz brilhou nas trevas, e as trevas não prevaleceram.

Sua inspiração foi ninguém menos do que Sadhu Sundar Singh, o apóstolo dos pés sangrentos, que uma vez, durante suas jornadas, dormiu na casa do seu pai quando este ainda era um menino. Seu pai lhe contava a história. O poder de um exemplo. O valor de uma visita…

Minha atenção fica dividida entre sua fala e meus pensamentos a respeito dos seus pés e sua história de vida. Depois desta fase itinerante começa a plantar igrejas. E elas crescem e se fortalecem. E em seguida, vendo que não havia escolas suficientes pra seu povo, ele, que não pode ir à escola, começa uma, depois outra e outra… hoje são mais de vinte escolas, acolhendo milhares de crianças pobres. No início do ano escolar, cada criança ganha um kit: uniforme, mochila, cadernos, livros e… um par de sandálias….

Por quantas e quantas vilas estes pés já não pisaram? Em seu país é proibido compartilhar a mensagem de Cristo. Há enorme perseguição. Mesmo assim, ele não desistiu. Quantos confrontos experimentou pelo Evangelho? Ele não fala sobre isso, mas seus discípulos afirmam que foi preso e agredido dezenas de vezes. Sua igreja, em seu país, sustenta mais de 400 evangelistas em tempo integral. Gente que está seguindo suas pegadas.

A conversa torna-se mais profunda quando, de repente, ele afirma que hoje, após um ano e meio no Brasil, está em paz. Sabe que foi o Eterno que permitiu sua perseguição. Está sereno. Já não chora mais todo dia, como era no início. Pede-me desculpa por ter-me dado tanto trabalho… Mal sabe ele o quanto me abençoa!

E assim duas horas passam voando. Como de costume, pede que eu ore antes de sair. Fico inclinado a pedir pra fotografar seus pés, mas logo abandono a ideia. Como iria explicar um pedido desses? Levanto-me em direção à porta e ele pede mais um minuto. Vai até a cozinha e volta com uma enorme sacola plástica cheia de frutas. Mangas, bananas, maçãs… Fico constrangido. Há pelo menos cinco vezes mais frutas naquela sacola do que na que eu trouxe… Eu comprei pra levar na sua casa, mas como me perdi no caminho, trouxe de volta…

Pego o sacola de frutas. Surpreendo-me com o peso. Fico imaginando ele andando no sol do meio dia com esta sacola pesada. Saio de sua casa com muito mais do que quando cheguei.

Esta história é uma metáfora do que tenho vivido no acolhimento destes nossos irmãos em situação de refúgio ao longo destes anos. Longe de serem um peso, são uma benção a ser acolhida.

Ele faz questão de me acompanhar até o carro. Combinamos um próximo encontro antes do natal. Na sua casa, diz ele. Da próxima vez vou acertar. Volto pra casa com o coração grato e com um enorme sentimento de pequenez. Temos tanto. Agradecemos tão pouco. Repartimos menos ainda…

Como são bonitos os pés dos que anunciam as boas novas… A beleza certamente não está visível à todos. Pra vê-la é preciso acolher o mensageiro peregrino. Ele traz a mensagem de paz. Bem disse nosso Senhor: felizes, abençoados os puros de coração. Eles verão a D’us…

Estou certo que vi a face de Cristo na face (e nos pés) deste meu irmão apóstolo refugiado. Minha oração é que de alguma forma eu possa ser benção na vida dele e de tantos outros peregrinos, como eles são para mim.

Obrigado a todos vocês que, de diferentes formas, permitem que eu e minha família vivamos estes encontros. Fiquem na paz.

(Foto by Ernani Cabañas)