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Direitos Humanos

Racismo: sua origem e cura

O mundo não é justo e o Brasil é um dos países mais injustos do mundo. Isto é pecado e afronta o coração do nosso Pai que é Santo e que se levanta contra toda forma de injustiça. Dentre tantas injustiças deste mundo mau, o racismo é uma das mais repugnantes, pois afirma o valor e dignidade de alguém a partir da cor da pele. Sua raiz está no orgulho de se achar melhor, de ter mais valor do que o outro. Pecado.

Não só os negros são alvos do racismo e deste orgulho incabível. Há também o preconceito contra os indígenas (que para muitos não são “gente”), contra os ciganos, analfabetos, pobres e também contra as mulheres, que até pouco tempo eram consideradas inferiores aos homens. O racismo é o fundamento da eugenia, doutrina que prega a limpeza étnica, a purificação da raça (conceito racista), a aniquilação do outro (diferente de mim, branco puro). Assim, o nazismo é filho do racismo.

Apesar de parecer absurdo, nossa geração tem visto o renascer destas doutrinas hediondas, com movimentos neonazistas e de supremacistas brancos se espalhando pelo mundo. Destilam ódio, violência e morte. Em meio a isto vemos a morte de George Floyd, João Pedro, Miguel…

É obvio que todas as vidas importam (numa sociedade sadia). Não está sendo dito que só as vidas dos negros importam. É claro que a Bíblia ensina que todos nós somos iguais perante D’us. Mas o movimento nas ruas não está criticando o que a Bíblia ensina, mas sim como nossa sociedade doente, pecaminosa, maligna, foi e está estruturada. Daí a expressão “racismo estrutural”.

O que precisa ser vencido, como humanidade e particularmente no Brasil, é nossa incapacidade ou falta de vontade de nos colocarmos no lugar do outro. Especialmente o que é diferente de nós. E o Evangelho vai no coração deste egocentrismo: Ame o próximo como a ti mesmo. Faça ao outro o que você quer que ele lhe faça. Nas palavras de Paulo, alegrem-se com os que se alegram, chorem com os que choram. Tudo isso confronta nosso pecado egoísta e nos convida a nos colocarmos no lugar do outro, ferido, injustiçado, explorado, violentado. É isto que estou buscando. Creio que este é um exercício necessário a ser feito no Brasil, hoje. Estamos séculos atrasados e nossas injustiças se acumulam aos céus.

O evangelho que nos foi pregado enfatizou sobremaneira que a salvação é uma dádiva pessoal, espiritual, intimista, a ser vivido dentro de nossos quartos, nossos templos. Tenho aprendido na Palavra e na vida que o Evangelho também é comunidade, justiça, paz (veja conceito de Shalom no AT) e tem muito a falar contra o pecado na sociedade. Ele toca na concretude da vida lá fora.

Em Mateus 23.13 Jesus afirma que os fariseus (que eram piedosos religiosos à sua própria vista) eram hipócritas porque “devoravam as casas das viúvas” e para se justificar, faziam longas orações. No verso 23 Jesus os acusa de serem tão meticulosos a ponto de dar o dízimo de pequenas coisas, como a hortelã e o cominho, mas negligenciar os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fé. Em Lucas 16.14, após Jesus afirmar que não era possível servir a dois senhores, a Deus ou a mamon (dinheiro), os fariseus o ridicularizaram, pois, “eram avarentos”, ou em outra tradução, “amavam o dinheiro”.

É por estas e outras que creio ser relevante tratarmos estas questões no Brasil de hoje a partir da ótica da fé que Jesus nos ensinou. É incoerente que um seguidor de Cristo se negue a exercer empatia, misericórdia, justiça. Padece de cegueira e audição seletiva. Há muito o clamor dos estrangeiros, das viúvas e órfãos pobres, dos injustiçados, dos explorados não chega até estes ouvidos seletivos. É como se estivessem no alto de suas varandas, louvando a D’us pela natureza, pelo lindo pôr de sol, e fossem incapazes de escutar o clamor dos que são explorados, deixados à sua própria sorte nas calçadas.

Que o Senhor tenha misericórdia de nós e nos ajude a ver, ouvir e sentir a dor de nossos irmãos. Só assim seremos capazes de nos juntar a eles em seu clamor por justiça.

Ore por mim, quero muito viver à altura daquilo que escrevo.
Abraço fraterno.

(Imagem: Yann Libessart- MSF)